O que é Cinomose Canina? Conheça uma das doenças mais perigosas

Por Jessica Sole, médica-veterinária, Consultora de Demanda Ourofino Pet

21 de Janeiro de 2022

O que é Cinomose Canina? Conheça uma das doenças mais perigosas

O que é cinomose canina?

A Cinomose é uma doença multissistêmica infectocontagiosa grave e muitas vezes letal, de evolução aguda, subaguda, ou crônica, que ocorre no mundo todo e acomete diversos animais terrestres e aquáticos, entre eles os cães. (Carvalho et al., 2012).

As taxas de morbidade e mortalidade são bastante altas em filhotes e jovens adultos, principalmente nos não vacinados. Estudos mostram que a sua prevalência em cães no Brasil varia de 10% a 41-50% e a prevalência na rotina clínica na visão dos médicos veterinários é de 91,7%. (Costa et al. 2019).

O Vírus

O Vírus da Cinomose Canina (Canine Distemper Vírus - CDV) é um RNA de fita simples, envelopado, que pertence a família Paramyxoviridae, gênero Morbillivirus. Há somente um sorotipo relatado que apresenta variações de patogenicidade e virulência nos hospedeiros. São sensíveis a altas temperaturas (56º C) e a solventes lipídicos (Cartroxo, 2003; Flores, 2007; Jericó, 2015).

Patogenia

O cão poderá se infectar ao ter contato com partículas virais das excreções e secreções corpóreas presentes no ambiente e em objetos, ou em contato direto com um animal que tenha a doença (Cartroxo, 2003; Flores, 2007).

O animal poderá eliminar partículas virais a partir do 5º dia de infecção por até 60-90 dias. É importante ressaltar que o cão poderá transmitir o vírus antes mesmo de ter sintomatologia e há animais que se tornam hospedeiros assintomáticos e desenvolvem a doença de forma subclína, no entanto também poderão transmiti-la. A transmissão transplacentária também pode ocorrer, levando a abortos, ou ao nascimento de filhotes fracos e imunossuprimidos (Nelson e Couto, 2001; Cartroxo, 2003; Flores, 2007; Jericó, 2015).

O CDV invade inicialmente o trato respiratório superior e se replica em macrófagos e linfócitos B e T nas primeiras 24 horas, então partículas virais se espalham através da via linfática para os gânglios e tonsilas levando a uma grave imunossupressão. No 4º ao 6º dia pós-infecção, o CDV irá se replicar na medula óssea, timo, baço, nódulos linfáticos, mesentéricos, placas de Peyer, células de Kupffer e as células mononucleares nos pulmões. Nessa fase o cão poderá apresentar uma hipertermia devido à intensa multiplicação viral e leucopenia causada pela depleção de células linfoides. No 8º ao 10º dia pós-infeção o CDV migra para sistema nervoso central causando alterações neurológicas, cuja gravidade depende da cepa envolvida e a condição imunológica do cão. Essas lesões neurológicas possuem caráter desmielinizante, assim como a esclerose múltipla em humanos (Greene, 2006).

Sintomas da cinomose

A cinomose canina é uma doença que não apresenta nenhuma sintomatologia patognomônica. Inicialmente os sintomas mais frequentes podem incluir secreções nasais e oculares, tosse úmida, dispneia, febre, anorexia, conjuntivite e diarreia, podendo variar de indivíduo para indivíduo.  Os sinais clínicos neurológicos que o animal poderá apresentar estão ligados ao local do SNC afetado. A paralisia dos membros pélvicos, ataxia, convulsões, nistagmo e mioclonias são observados com frequência. Co-infecções com a parvovirose, adenovirose, entre outras doenças causadas por vírus e infecções causadas por bactérias podem ocorrer, agravando o quadro (Greene e Appel, 2006; Flores, 2007).

Diagnóstico

O diagnóstico é realizado pelo médico veterinário, através do histórico do animal, exame físico e exames laboratoriais (Santos et al., 2016).

O Vírus pode ser detectado através de diversas técnicas utilizando amostras de sangue e secreções (Li et al., 2013). Atualmente testes sorológicos rápidos são realizados na clínica veterinária e o RT-PCR é considerado uma das técnicas confirmatórias para o diagnóstico.

Em relação as alterações hematológicas, podemos observar anemia, leucocitose com neutrofilia ou leucopenia associada à linfopenia, e trombocitopenia e inclusões virais denominadas corpúsculos de Lentz que podem ser encontrados em leucócitos, eritrócitos, linfócitos e neutrófilos, esse achado é considerado um método de diagnóstico definitivo e de fácil execução (Vicente et al., 2010; Jericó, 2015).

Tratamento

Existem poucos estudos utilizando um antiviral específico, mas existem formas de reduzir a sintomatologia e a progressão da doença instituindo um protocolo de suporte com antimicrobianos de amplo espectro, expectorantes, broncodilatadores, corticosteróides, antipiréticos, antiácidos, antieméticos, anticonvulsionantes , fluidoterapia e suplementação vitamínica mineral com o intuito de auxiliar na regeneração celular e estimular a imunidade. Quando não há sintomatologia neurológica, pode ocorrer uma melhora espontânea utilizando apenas o tratamento sintomático (Greene, 2006; Pereira, 2014).

As terapias complementares como a fitoterapia, fisioterapia e acupuntura possuem relevância na melhora do quadro clínico (Lesnau, 2008).

Importância da Prevenção

Como citado anteriormente, não há um tratamento realmente eficaz contra essa doença, portanto a prevenção com um protocolo vacinal eficaz é de extrema importância.

Segundo diretrizes de vacinação, como o WSAVA, a imunização deve ser realizada com uma vacina viva modificada a partir de 6 a 8 semanas de idade, repetida após intervalo de 21 a 30 dias até o animal completar 16 semanas e mais uma dose deverá ser feita quando o animal completar 6 meses de idade. Quando há um grande desafio, ou seja, um filhote com alta exposição ao vírus ou pouca imunidade recebida do colostro, o protocolo pode ser iniciado a partir de 4 semanas de vida. Atualmente estudos mostram que as doses de reforço não são necessárias com intervalos menores que 3 anos, essa prática já é realizada em outros países, onde estão disponíveis vacinas somente com vírus vivos modificados.

Consideração Final

O médico veterinário tem um papel muito importante na conscientização da população, prevenção e erradicação dessa doença. A cinomose canina não apresenta até então um tratamento específico, mas pode ser prevenida através da vacinação e medidas de controle.

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